WALKING AROUND... Pablo Neruda 25/01/2005 Acontece que me canso de meus pés e de minhas unhas, do meu cabelo e até da minha sombra. Acontece que me canso de ser homem. Todavia, seria delicioso assustar um notário com um lírio cortado ou matar uma freira com um soco na orelha. Seria belo ir pelas ruas com uma faca verde e aos gritos até morrer de frio. Passeio calmamente, com olhos, com sapatos, com fúria e esquecimento, passo, atravesso escritórios e lojas ortopédicas, e pátios onde há roupa pendurada num arame: cuecas, toalhas e camisas que choram lentas lágrimas sórdidas.
"A intenção foi brincar com o slogan da ditadura, 'ame-o ou deixe-o', promovendo, através da substituição de uma preposição, um corte profundo de ruptura no significado reducionista, possessivista e parcial do aforismo oficial, símbolo do fechamento e da exclusão maniqueísta, para criar um outro, com outra moral, a do amor - e, portanto, absolutamente generoso, democrático e libertário. A concepção de 'amor livre' é também reiterada, reintroduzida como objeto de respeito e admiração à liberdade no amor, e ampliada até para um sentido mais cristão, de amor irrestrito.
"Minimalista já na escolha de uma máxima tão concisa e conclusa, a letra também o é na construção - na maneira como suas significações se sobrepõem como degraus de uma escada tosca, de pedreiro, somando-se com um certo desejo geométrico e uma ambição de organização aritmética de fatores numa conta de adição feita com números muito simples."